Racismo, identidade e consumo: um debate difícil, mas necessário




Não é a primeira vez que assisto a este vídeo. Devo dizer que a primeira impressão que tive não foi clara. Dúvidas surgiram em relação às perguntas selecionadas. Não poderiam elas induzir, de algum modo, às respostas? O tom, a pergunta anterior ou mesmo o olhar do entrevistador não poderiam influenciar a opinião da criança indagada? 

Apesar de todas as dúvidas e de ainda acreditar que as perguntas binárias são perigosas porque sugerem um jogo de opostos - com todas as consequências sociais que isto implica -, não posso deixar de me surpreender com a evidência de que o racismo pode naturalizar-se no discurso e nas impressões das crianças. E penso que a lição que se tira deste vídeo é mais crua do que podemos inicialmente identificar numa "vista d´olhos".  Tão  impressionante como ver crianças brancas, no México, apontarem os bonecos negros como 'maus' ou 'feios' - reproduzindo um padrão racista visto em família ou na escola - foi ver crianças não-brancas identificando-se com bonecos brancos e esforçando-se por encontrar-se neles - caso do menino que diz identificar-se com o boneco branco 'nas orelhas'. A fratura na construção identitária (como negro, indígena, mestiço) e a identificação com uma diferença que simbolicamente oprime - o branco como padrão de beleza e perfeição - não podem deixar de causar algum espanto. 

O mesmo estudo foi aplicado em outros países - como Chile e República Dominicana - e apontou algumas pequenas diferenças nas respostas, confirmando que o contexto interfere na percepção e posicionamento infantis. Contudo, conforme mostram os outros vídeos, valores, padrões de comportamento e perspectivas de sucesso continuam simbolicamente associados à cor da pele. 

E perpassam o mundo dos brinquedos. Brinquedos que, como sabemos, reproduzem o imaginário dominante. De sucesso, de prosperidade, de competição, de beleza. Por que parecerá sempre tão natural que as crianças negras brinquem com bonecas brancas e o inverso não seja igualmente comum? Quem faz esta ponderação é a artesã Ana Fulô, que, com as bonecas negras que fabrica, tem alertado para a com-temporaneidade* de outras estéticas (veja-se em http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2014/03/03/2859/).

 

Voltando aos vídeos. É urgente refletirmos sobre como o racismo marca os corpos desde a infância. Sobre como as noções de bom e de mal, de belo e de feio, de riqueza e de pobreza, na narrativa das crianças, são plasmadas em impressões e preconceitos que dominam o imaginário social.

As crianças são vítimas deste imaginário e de sua reprodução - tanto as que sofrem o racismo direto em seus corpos quanto as que, involuntariamente, o reproduzem, independente da cor de sua peles. 

Os vídeos acima, apesar de suas limitações, nos ajudam a pensar três questões candentes:

1) Que o debate da raça ainda está muito calcado na cor da pele e que tom de pele, às vezes, muda o rumo da prosa. Há aqui um equívoco nem sempre visível, já que a dimensão étnico/racial não pode ser reduzida a questões fisionômicas/biológicas. A este respeito, a antropóloga Manuela Carneiro já nos havia advertido.

2) Que o racismo, na sua condição de automatismo social, se volta duplamente contra o próprio corpo da criança não-branca, significando um golpe na sua auto-estima e no próprio reconhecimento de si.  

3) Que o consumo pode constituir-se como um dos espaços privilegiados de naturalização do racismo. Os estudos do Chile e da República Dominicana tiveram que pintar bonecos  para poder realizar a pesquisa. Se há crianças negras nestes países porque todos os bonecos são brancos?! Uma outra pergunta, no âmbito do consumo, deveria ser feita: a que ideais de beleza, a que classe social e a que relações de género as bonecas/bonecos reproduzem e dão voz?

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* O sentido de contemporaneidade aqui empregado relaciona-se com o conceito proposto por Boaventura de Sousa Santos, ao denunciar a monocultura do tempo linear e ao propor uma ecologia das temporalidades.

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